
O futuro das cidades está na música.

A cultura hoje representa o equivalente a algo próximo de 3% do PIB brasileiro. Mas, para além do dinheiro, o que esse dado nos diz sobre o lugar onde vivemos?
A forma como as pessoas pensam soluções quando o assunto é o crescimento das cidades
no Brasil está passando por uma transformação. Se antes "smart cities" envolviam ideias
relacionadas à tecnologia e grandes obras, agora uma das ‘novas’ ferramentas de
desenvolvimento urbano se tornou a cultura.
Um relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicado em 2025,
revela que as atividades culturais já empregam 5,9 milhões de pessoas e contribuíram com
um valor adicionado de R$ 387,9 bilhões para a economia. Para ter uma ideia, isso é
equivalente a quase 3% do PIB nacional.
É um dado que ajuda a colocar em números o que o mercado imobiliário e o turismo já
sentem na pele: o futuro das cidades brasileiras está sendo desenhado por atividades
culturais, e a música é um dos principais ativos.
Da diversão à infraestrutura
O ponto aqui é que música não é só um show no fim de semana. Na verdade, a cultura
precisa ser tratada como infraestrutura, do mesmo jeito que a água ou a luz são pensadas.
“Água limpa só é importante quando você não tem ela, né? Eu acredito que a mesma coisa
acontece quando você ouve sua música favorita ou está em um show. Você pensa em
todas as pessoas nos bastidores fazendo aquilo acontecer para estarmos todos aqui?
Pensa no som, nas luzes, na segurança, nos técnicos, na hospitalidade, no transporte e no
intérprete de Libras?”
Shain Shapiro, especialista em música nas cidades, durante a 7ª edição do Smart City Expo Curitiba.

“Tudo isso são empregos. São funções nas nossas cidades que aumentam o valor cultural e econômico. Mas a gente costuma não pensar em música e cultura como pensa em infraestrutura”, complementou.
Ou seja, as pessoas não pensam diretamente na música como infraestrutura, mas é ela que
faz a rua ficar viva, iluminada e segura.
Festivais como cidades temporárias
Um exemplo nítido dessa mudança de mentalidade está na orla do Rio de Janeiro. Pelo
terceiro ano consecutivo, a Praia de Copacabana está sendo palco de destaque
internacional por conta do show da Shakira, marcado para o início de maio.
A apresentação mostra na prática como a música virou uma estratégia de desenvolvimento
urbano. A estimativa é que a passagem da diva pop pela cidade gere um impacto
econômico de até R$ 800 milhões para a cidade.
Esse número é fruto de uma gestão que entende a música como um ímã de arrecadação.
Só para comparar, um estudo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e da
Riotur mostra que esse volume vem crescendo ano a ano. Foram R$ 469 milhões em 2024
e R$ 592 milhões no ano passado. É a música ditando o ritmo do comércio, dos hotéis e da
alimentação.
Se você quer ver essa engrenagem funcionando ao vivo, basta olhar para os grandes
festivais. O Rock in Rio é um laboratório gigante e em 2024, em sua última edição, gerou
sozinho R$ 2,6 bilhões para a economia fluminense.
Isso vai além da venda de ingressos, envolve uma taxa de ocupação hoteleira que bateu os
95% e um aeroporto que precisa registrar 380 voos extras para dar conta do contingente de
pessoas.
Cidades inteligentes olham para esses números e entendem que um festival é, na verdade,
uma cidade temporária que precisa de saneamento, segurança e transporte funcionando.
Quando o Rock in Rio movimenta 40% a mais de passageiros na rodoviária, ele está
testando a infraestrutura da cidade.
O exemplo que vem de Londres
Para isso ser colocado em prática durante o ano todo, a gestão da cidade precisa se
planejar. Londres, por exemplo, criou em 2016 o cargo de ‘Czar da Noite’. O trabalho dessa
pessoa é cuidar para que a economia noturna - das 18h às 6h - funcione direito e prospere.
Isso mostra que cidades inteligentes não “fecham"; quando o sol se põe. Pelo contrário, uma
metrópole que está ativa durante 24 horas evita aquele vazio que traz insegurança e ajuda
o comércio girar o tempo todo.
E é justamente essa vida noturna que pode transformar a percepção dos moradores acerca
de um bairro, cidade ou país.
A Glória, localizada na Zona Central do Rio de Janeiro, passou por uma repaginada a partir
de 2022 na qual a cultura virou o principal atrativo. Hoje tem da tradicional feira de domingo
até os novos "listening bars" (aqueles bares focados em som de alta qualidade).
O resultado? O bairro voltou a ser desejado, novos empreendimentos imobiliários estão
surgindo e o turismo disparou. É a prova de que a cultura pode ajudar a valorizar o metro
quadrado de um espaço.
Uma cidade ideal para se viver
No fim das contas, iniciativas como o “Play Me, I’m Yours” (que espalha pianos pelas ruas
para a galera tocar) mostram que cidade inteligente é aquela que convida as pessoas a
interagir. Shain Shapiro resume isso bem: o ouro agora está na música e na cultura.
"Eu acredito que o futuro das nossas cidades é sobre extrair o que está nas nossas
cabeças e não o que está no chão. Porque nunca vai existir um `limite´ para a música ou
para a cultura. Infelizmente, o que está no chão uma hora vai acabar.”